Resenhas: A Menina dos Olhos Molhados - Marina Carvalho

07/12/2016

A Menina dos Olhos Molhados
"É a segunda vez na vida que encontro uma garota com esse tipo de olhar."
Marina Carvalho
Ano: 2016 / Páginas: 296
Idioma: português 
Editora: Globo Alt
Bernardo é jornalista por vocação: curioso, comprometido e muito bom com as palavras. Trabalha há anos em um importante jornal da cidade e suas matérias investigativas são sempre elogiadas. Ele só tem uma limitação... Odeia trabalhar em equipe. Há alguns anos, Bernardo sofreu com uma grande decepção amorosa, o que contribuiu para o seu jeito fechado e antipático. Por isso a incumbência de levar Rafaela – a nova estagiária do jornal – para todos os lugares é como o inferno para ele. Bernardo não perde nenhuma oportunidade de evitá-la, mas Rafa, além de ser uma jornalista extremamente talentosa, não engole desaforo. Com o passar dos dias, Bernardo percebe que não conseguirá seguir seu plano de ignorar a estagiária, muito menos todos os sentimentos que ela desperta nele. Entre reportagens intrigantes e perigosas, eles vão descobrir que têm muito mais em comum do que a imensa paixão pelo jornalismo...

Ciao!

- Para quem não sabe, A menina dos olhos molhados é o lado de Bernardo sobre o que acontece emAzul da cor do mar, que é narrado por Rafaela. E como Marina Carvalho antecipou na entrevista durante a Bienal de Juiz de Fora, com o bônus da gente saber mais sobre o Bernardo e descobrir o que o tornou o ogro oficial e irritante da redação. Por isso os capítulos possuem dois tempos narrativos: algum período entre os 18 e 22 anos de Bernardo e o momento em que Rafaela é empurrada para dentro da vida profissional dele.

- A vida tinha ensinado a Bernardo que as pessoas não mereciam a confiança dele e que era melhor trabalhar sozinho. Por isso ter que engolir ser babá da estagiária patricinha contratada por indicação de professora que jurava que era a melhor aluna não foi fácil. Ela precisava aprender e ele não estava nada disposto a ensinar. Prepare a pipoca: tudo pronto para o choque de vontades, egos e vaidades entre os dois.

- Pela minha experiência prévia nos diferentes papeis possíveis – estagiária, recém-formada e agora dinossaura no Jornalismo – posso atestar que nesta profissão você tem que estar apto a lidar com todo tipo de gente dentro e fora das redações nas mais diversas situações – desde as mais divertidas e inusitadas, passando pelas sérias e urgentes às mais vulneráveis e desesperadoras. As pessoas só enxergam o suposto glamour do produto final, mas não sabem o quanto de telefone batido na cara, xingamentos, menosprezos e “nãos” ocorrem diariamente. Ah, fora os que – formados pelas redes sociais da vida – sabem fazer muito melhor o que você estudou anos – no meu caso, graduação e Mestrado – para estar apto e com senso crítico para exercer.

- Obviamente não estou defendendo a forma como Bernardo trata Rafaela. Só ressaltando que, além de ser possível (tem gente que, ao contrário dele, faz isso por pura e simples maldade e não apenas com estagiários), às vezes, é muito pior. Creiam, queridos e queridas, você não vai encontrar aplausos por existir neste meio e tem que aprender a criar uma casca dura se quiser sobreviver na missão de fazer a diferença para alguém. Concordei com várias vezes em que Rafaela reagiu diante do comportamento de Bernardo (pra dizer a verdade, só teve UMA coisa que ela fez – citada nos dois livros – com a qual não concordarei nunca na vida. O mundo não aceita mais a visão romântica do jornalismo. Agora, em alguns casos com razão, o profissional virou o vilão da história. Portanto há limites para se colocar em risco por uma matéria, não importa quão boa ela pareça), até mesmo porque quem trabalha comigo sabe que quando baixa o santo escorpiano e a paciência acaba rende momentos divertidos pra quem está fora da linha de tiro.

- Em A menina dos olhos molhados, a gente acompanha como Bernardo escolheu o jornalismo e como a profissão foi se tornando importante para ele. Ao mesmo tempo, entende o que levou a se fechar para as outras pessoas e ter um estilo de vida solitário na profissão. Sim, foi uma daquelas coisas que nem cheguei a pensar entre as possibilidades que conjecturei enquanto lia Azul da Cor do Mar. E por mais que ele jurasse que tinha sido superado, ficou uma assombração não oficial que o levava a se recusar qualquer possibilidade de voltar a dar a mínima brecha ao sofrimento (como se a possibilidade de ter tamanho controle sobre a vida não fosse uma forma de autoilusão) e o leva a um comportamento que supera o meramente desconfiado e varia do grosseiro ao infantil (ah, convenhamos, ele apronta algumas coisas que não deixaram passar totalmente a vontade de dar umas kabongadas nele). No entanto, a gente aprende a lição: nunca saberemos a total extensão da dor que uma pessoa carrega, mas isso não dá o direito de sair por aí magoando os outros. Esta dualidade é o que pauta o relacionamento de Rafaela e Bernardo, que pode separá-los ou uni-los dependendo do quanto querem se comprometer com os riscos.

Adorei a história e não era nem necessário ter escrito isso tudo. Porque a Marina me ganhou na citação que abre o livro. 
Pois o jornalismo é uma paixão insaciável que se pode digerir e torná-lo humano por sua confrontação descarnada com a realidade. Ninguém que não a tenha sofrido pode imaginar esta servidão que se alimenta dos imprevistos da vida. Ninguém que não a tenha vivido pode conceber, sequer, o que é essa palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo das primícias, a demolição moral do fracasso. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderá persistir num ofício tão incompreensível e voraz, cuja obra se acaba depois de cada notícia como se fora para sempre, mas que não permite um instante de paz enquanto não se recomeça com mais ardor do que nunca no minuto seguinte. Gabriel García Márquez. 
Enfim, nenhuma pessoa normal faz jornalismo. Só os insanos. Porque é exatamente isso que ele descreveu e não é qualquer um que segura essa marimba, não! Bernardo e Rafaela que o digam!


Bacci!!!
Beta Oliveira

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