Resenha: O menino feito de blocos – Keith Stuart

14/11/2016

O Menino Feito de Blocos
Keith Stuart
Ano: 2016 / Páginas: 378
Idioma: português 
Editora: Record
Uma história sobre um pai e seu filho autista, e sobre um jogo que mudou suas vidas. Alex ama sua família, mas tem dificuldade em se conectar com Sam, o filho autista de oito anos. A tensão crescente da rotina leva seu casamento ao ponto de ruptura. Jody não aguenta mais o marido ausente e que pouco participa da vida do filho. Então Alex vai morar com o melhor amigo, e passa a dormir no colchão inflável mais desconfortável do mundo. Enquanto Alex enfrenta a vida de homem separado, cumpre a função de pai em meio-expediente e é confrontado com segredos de família há muito enterrados, seu filho começa a jogar Minecraft. E o que acontece depois disso é algo que nem Alex, nem Jody, nem Sam poderiam imaginar. Inspirado no relacionamento do autor com seu filho autista, O menino feito de blocos é um livro emocionante, engraçado e verdadeiro sobre o poder da diferença e sobre um menino para lá de especial.


Ciao!

- É um livro sobre tanta coisa, mas tanta coisa, que espero poder me lembrar de todas. Fala sobre a jornada de um pai para encontrar uma conexão com o filho. Fala sobre a sensação de fracasso que assombra um homem ao perceber que estava sob risco de perder a família e que não tinha mais um emprego. Fala sobre como a gente nunca pode fugir de um trauma, porque ele se torna uma assombração capaz de minar aos poucos o que há de bom na nossa vida. Fala sobre angústia, medo, pânico. Fala sobre amizade e amor. Fala que cada um pode encontrar a própria receita de felicidade, sem depender do estereótipo do “comercial de margarina”.

- Quando recebi o livro pensei que seria triste. Sim, tem tristeza, porque, como bem explicou a animação Divertida Mente, ela é necessária para nosso crescimento pessoal e emocional. No entanto, vemos Alex se afundando na própria confusão íntima, percebemos que há uma esperança de redenção. Não é um livro para baixo. É um livro que conversa contigo sempre dizendo que as coisas podem melhorar se a gente se dispuser a lutar por isso.

- Alex estava perdido e sufocado na própria dor, na própria angústia de não ser suficiente, de não ser necessário, de fazer as coisas erradas, de querer acertar, mas só errar. Tudo começou com um trauma na infância, que afetou toda a família dele, uma bola de neve que virou avalanche por ter sido, de certa forma, ignorada. Ao tentar evitar a dor que sentiu antes, ele acaba por se afastar e se privar de muitas experiências. E isso coloca em risco o casamento e a relação com o filho.

- Sam é um ponto fundamental na trama. O pai não compreende plenamente o fato do filho ter autismo e não ser uma criança como as outras. Não sabe o que fazer, como agir, passa o tempo inteiro com medo de ele ter uma crise e não saber lidar. Aí surge um canal inesperado – Minecraft. (Não entendo nada de videogame e o livro me ajudou a entender a dinâmica do jogo. Fui aquela criança da década de 1980 que não teve um Atari, que jogava quando os primos estavam na cidade e sempre perdia porque possui uma coordenação motora de uma bola doida de pinball. Sou a pessoa que jogava com o Luigi, libertava o Yoshi ingrato que fugia e me deixava estabacando sozinha) No universo do Minecraft, Sam e Papai podem construir uma realidade controlada, assumir os riscos e medo apenas se quiserem. Ao compartilhar este universo, pai e filho rompem algumas barreiras, passam a se comunicar melhor e Alex consegue finalmente enxergar Sam além do rótulo dado pelo autismo. 
E experimento um instante peculiar e chocante de clareza: Sam é um ser humano separado de mim, separado até da Jody. Não é um problema a ser resolvido, um compromisso na minha agenda, outro elemento preocupante da minha lista diária de afazres. Ele é uma pessoa, e em algum lugar em sua mente estão suas próprias ideias, suas prioridades, suas ambições para o futuro. É impressionante notar como foi fácil ignorar tudo isso, no meio de tudo que estava acontecendo, em meio à luta com o autismo, as batalhas diárias com escolas, comida e roupas. Ele é uma pessoa – ele quer coisas, quer entender seu lugar no mundo. E meu dever é ajudá-lo”. 
- É lindo e emocionante. Keith Stuart tem uma sensibilidade inacreditável para narrar a jornada de Alex. Ele tem um menino que também foi diagnosticado como estando no espectro do autismo, então, compartilha os melhores e piores momentos que os pais passam ao saber, como lidar e o que podem enfrentar ao saber que o filho enxerga o mundo de uma maneira diferente e própria. Isso dá alma ao livro. Porque em nenhum momento você tem a sensação de que “ah, o autor fez isso pra apelar! Isso é fake”. As dores e as alegrias vivenciadas pelos personagens – incluindo as relacionadas ao autismo – soam como mais que verdadeiras, causam identificação em quem lê. Que pai ou mãe não teme pelo futuro do filho? Que relacionamento não entra em crise – por amar demais, de menos ou por pressões externas? Quem nunca se viu sufocado na carreira e não invejou a boa sorte dos outros? Quem nunca se afundou na dor própria ao ponto de se esquecer de que todo mundo tem algo bom, memórias boas das quais deve se orgulhar e apegar, para acreditar que tudo irá mudar. 
– É por isso que é difícil – porque a vida é extraordinária e cheia de significado, e coisas assim têm um custo. É preciso ser paciente, forte e estar preparado. Por muito tempo nessa aventura eu fui um tolo – eu via Sam como obstáculo, algo do qual eu precisava desviar. Mas eu estava errado”. 
- “A vida é construída sobre as pequenas coisas”, diz a capa (que aliás tem texturas diferenciadas nos blocos onde estão as palavras do título, é uma delícia de passar a mão). Uma singela pista do quão simples e maravilhosa é a história narrada por Keith Stuart. Se tiver chance, leia.


Bacci!!!
Beta Oliveira

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