Resenha: As relações perigosas – Choderlos de Laclos

06/09/2016

As Relações Perigosas
Choderlos de Laclos
Ano: 2012 / Páginas: 480
Idioma: português 
Editora: Penguin Companhia
Jogo de poder, de sedução e de manipulação. A marquesa de Merteuil e o visconde de Valmont não hesitavam em transformar as pessoas em peças de disputas e diversão para sua inteligência afiada e sua inesgotável capacidade de sedução e convencimento. Em menos de seis meses, a disputa que começa cordial e termina como guerra, causa rompimentos, sofrimentos, desgraças e perdições. Uma trama que revela os extremos dos seres humanos nas vozes dos protagonistas e de suas vítimas, inimigos e “inocentes” (ou nem tanto) úteis.

Ciao!!

- É um tipo de romance que eu ainda não tinha lido. Não tem um narrador. Toda a história é contada por meio de cartas escritas pelos personagens uns para outros ou para confidentes. É uma experiência muito diferente de ter um narrador – seja em 1ª ou em 3ª pessoa – mediando nosso contato com a trama e com os participantes dela. Neste romance epistolar, eles se oferecem à nossa apreciação. Alguns sem reservas, outros exercitando diferentes personas para atender aos seus objetivos específicos. Desta forma, temos demonstrações claras e intensas de sentimentos vividos ou fingidos por todos eles.

- Temos Cécile Volanges, a adolescente que saiu do convento para se casar com Gercourt, o marido escolhido pela mãe, mas que se apaixona pelo professor de harpa, o cavaleiro Danceny. Temos a sra. de Volanges, mãe de Cécile, que se corresponde com a presidenta de Tourvel, a sra. de Rosemond e a marquesa de Merteuil. Por sua vez, temos intensa e sincera (em grande parte) troca de cartas entre a marquesa e o visconde de Valmont, sobrinho da sra de Rosemond. Por vingança, Merteuil quer que Cécile não chegue virgem ao casamento com o conde de Gercourt, um ex-amante que a deixou por outra. O enlace a tornaria prima dele. Ela tenta recrutar Valmont para o projeto de corromper Cécile, mas ele está ocupado em um projeto pessoal: seduzir a presidenta de Tourvel, jovem casada, virtuosa, devota, dedicada à caridade. Desta forma surge o desafio entre os dois “vilões”, ver quem consegue o objetivo primeiro, usando de todas as armas e pessoas a dispor.
 Quando tenho queixas contra uma pessoa, não a escarneço; faço melhor: vingo-me(carta 159. Pag. 429)
- Merteuil e Valmont são dois personagens prato cheio para atores. Fico imaginando a felicidade de quem é escalado para interpretá-los pela riqueza de abordagem que eles oferecem. São inteligentes, sarcásticos, capazes de destrinchar os pontos fracos daqueles que querem manipular e/ou atingir, frios, intensos, egoístas, egocêntricos, vaidosos, sedutores. Valmont é o lobo que quer convencer Trourvel de que pode ser redimido apenas pelo amor que sente por ela, desde que seja correspondido e ao mesmo tempo, se passou por pombo-correio de Danceny e Cécile, para conseguir estuprá-la. Merteuil posa de impoluta dama da aristocracia, a viúva inconquistável do marquês, enquanto coleciona conquistas amorosas. E no período em que acompanhamos manipula os sentimentos de Cécile e Danceny conforme seus próprios interesses para conseguir a vingança que tanto deseja.

- Cécile é de uma inocência e falta de malícia que chega a dar pena quando você a vê confidenciando sentimentos à Merteuil ou confiando em Valmont. Falta a ela esperteza para discernir os riscos, mas está apaixonada e espera superar o sofrimento para viver o amor com Danceny. Aliás, o professor de música seria um excelente protagonista daquele estilo romântico de livro, onde o herói sofre todas as agruras para amar a heroína idealizada e fora do seu alcance. Para azar deles, seu primeiro amor, repleto de sentimentos intensos será usado como joguete pela marquesa e pelo visconde e poderá não sobreviver à provação.

- Tourvel, a presidenta, que está na casa de campo da sra. de Rosemonde enquanto o marido viaja. O modelo de virtude admirado pela sociedade. Feliz no casamento. Lógico que tanta pureza atrairia a atenção de Valmont que anseia em acrescentá-la ao rol de suas conquistas. Só que quebrar a resistência da virtuosa exige muita persistência e artimanhas, porque ela se revela muito mais difícil que ele previa. E este amor pode ser a perdição desta alma nas mãos do sedutor mor. Em contrapartida, pode não ser a única vítima deste jogo de sedução do qual é a parte inocente até quando a verdade vier à tona.

- Não é à toa que, em meio aos personagens previsíveis, Merteuil e Valmont só consigam ser páreo um para o outro, porque possuem características que se anulam. A cisão começa com ciúmes dele, que a trata como se fosse uma “mulherzinha como as outras” – e em duas cartas fenomenais, ela detalha e prova que está acima disso (fora todas as vezes que ela debocha porque ele comemora vitória antes da hora e logo em seguida quebra a cara, como ela já imaginava). Se a marquesa demonstra mais inteligência e frieza, acaba derrotada ao articular a destruição do agora desafeto jurado por não ter sido capaz de prever uma manobra do passional visconde.

- Não é à toa que o livro causou o maior fuzuê quando foi publicado. O autor torna estes personagens tão humanos, tão reais que você consegue imaginá-los atuando por aí. E diante do que lemos em jornais, internet e revistas, sabemos que muitas vezes a ficção não é nem sombra da realidade. Pensando nisso, o livro se chama “As relações perigosas ou Cartas recolhidas de uma sociedade visando à instrução de outras”.

Este relançamento chegou às livrarias aproveitando o embalo provocado pela mais recente das adaptações, a minissérie da Globo, exibida em janeiro. Entre as mais recentes, houve uma versão chinesa em 2012. Outra versão é a Segundas Intenções com Sarah Michelle Gellar, Ryan Phillipe e Reese Whiterspoon. Há também Valmont com Colin Firth no papel principal. A mais conhecida é a versão com John Malkovich e Glenn Close nos papeis principais, de 1989.

Bacci!!!
Beta Oliveira

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3 comentários :

  1. Não dei ainda muita animação pra ler, mas vi algumas coisas dele e achei até interessante. Pela forma de ser contada a história e por mesmo assim os personagens se tornarem reais, do tipo que você se conecta e passa a querer saber mais. É uma leitura bem diferente, acho que seria boa de conferir. E tem muita adaptação pra poder ver depois, né.

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  2. A sinopse de As relações perigosas não me interessou, não sem falar que o modo que a história é contada - sem narrador, através de cartas - é algo que também não estou acostumada a ler, e tenho a impressão de que não me agradará caso eu fosse ler o livro, o que não prerendo fazer...
    Abraços!

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  3. O mais próximo que cheguei desta história foi através da minissérie da Globo, mas não consegui acompanhá-la, então nem corri atrás do livro.

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Obrigada por comentar!
Feliz dia!!!

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