Resenha: 1+1 - A Matemática do Amor - Vinícius Grossos / Augusto Alvarenga

08/08/2016

Vinícius Grossos
Augusto Alvarenga
Ano: 2016 / Páginas: 256
Idioma: português 
Editora: Faro Editorial
Lucas e Bernardo são dois garotos, melhores amigos um do outro de toda a vida. De repente, recebem a notícia de que Bernardo irá se mudar com a família para outro país. Nesse momento, cada um a seu modo, percebe como valiosa era aquela amizade, algo que não queriam perder. Bernardo reage mal e se revolta. Lucas tenta transformar cada dia que resta com o amigo na melhor experiência de suas vidas. Ele escreve uma lista de coisas para fazer e pretende cumprir uma por uma, em todos os detalhes. Mas, a cada dia, o fantasma da separação os assombra com um cronômetro lembrando que o tempo se esgota e, ainda assim, os dois passam por grandes momentos juntos. Então os meninos percebem que há algo mais entre eles... um sentimento profundo, que não conseguem explicar e tornam todas aquelas experiências ainda mais intensas. Mas o que fazer com tudo isso quando se tem apenas 16 anos?
Ciao!!

- É uma história sobre tantas coisas que espero não me esquecer de nada até o final deste texto. É sobre amizade verdadeira, o primeiro amor, mudanças de vida, afirmação da própria identidade, sentimentos confusos, hormônios, laços familiares, adolescência, maldade, julgamento, homofobia, liberdade, a busca por explicações, a vontade de encontrar o próprio “lar” e o desejo de ser amado como se é. É sobre coisas que vivi quando tinha os 16 anos de Lucas e Bernardo, coisas que ainda desejo alguns anos depois e outras coisas que pertencem a histórias que não são minhas para contar, mas que acompanhei porque fui coadjuvante-testemunha ou simplesmente aquela que torceu para que tudo desse certo no fim das contas.

Não tive custo pois só me fez bemGanhei o mundo e tirei meu pé do chãoMe deu sua mão.
Pra ser tumulto tem de ter alguém.Alguém no mundo tem de ser um outro alguémque faça bem a todos nós.
Ah... se eu pudesse termais um dia assim com vocês, eu teria.(link da música)

- Lucas e Bernardo são garotos de personalidades distintas, mas com um forte vínculo construído ao longo dos anos de amizade, aventuras e descobertas, seja dos filmes, das pipocas - inclusive queimadas -, dos passeios de bicicleta ou simplesmente não fazer nada porque a companhia um do outro bastava. No entanto, a bomba de que não estariam mais na janela ao lado deu um sentido de urgência e um tique-taque de contagem regressiva a tudo. A saída era transformar o tempo em aliado, criando lembranças que tornasse menos difícil (porque nunca é fácil, pode crer) quando estivessem a um oceano e um avião de distância.

Diz que sente o que eu senti.Diz que vê o que vi.Você é a verdade que não me doeu.Aquela ami que enfim zade já bateu.A sua coragem me fortaleceu.Você é o encaixe, à parte, em mim maior.(link da música)

- Só que a vida – aquilo que ocorre enquanto você está ocupado fazendo planos (como volta e meia dizem por aí) – resolve intervir e os planos de Lucas para férias perfeitas começam a ter uma série de complicações e imprevistos. E isso ajuda a revelar sentimentos que nem os garotos se deram conta propriamente e, ao perceberem, ainda não estavam prontos para entender. Por que doía tanto para Bernardo partir? Por que doía tanto para Lucas saber que ficaria? Ao longo das aventuras e desventuras das “últimas semanas juntos o tempo todo”, os garotos vão descobrindo que o sentimento entre eles era outro, mais forte, mais complicado, mais profundo e muito mais complexo. Com isso, vem o medo do desconhecido, de ser mal-entendido, de ser julgado, de não ser correspondido.

- E morando em cidade do interior (se bem que não é "exclusividade" porque todas as famílias, casas, ruas, bairros, cidades, estados e países, enfim, todos os lugares, são repletos de seres humanos bons e ruins), o medo procedia. Afinal de contas, o que mais vemos por aí na vida real ou virtual são pessoas que sobem em um pedestal e se arvoram no direito de ditar preceitos e preconceitos sobre a vida dos outros (enquanto em muitos casos varrem seus próprios pecados para baixo do tapete). E para ser julgado (onde foi parar o “atire a primeira pedra quem não tem pecado”?) e condenado, basta não ser como o outro quer que você seja. Surreal, não é? Mas – em muitos casos, lamentavelmente – muito real dentro ou fora de casa.

- Por isso, quem já viu isso antes (em forma de notícias apuradas e divulgadas ou de desabafos onde o máximo que podia fazer era ouvir quando a vontade era comprar a briga e botar para quebrar) entende de cara muitas entrelinhas na jornada de Lucas e Bernardo. Consegue ver a maldade disfarçada de "brincadeiras", "código de pertencimento a um grupo" e/ou “foi só uma frase”. Consegue se colocar no lado de quem sente a dor e ver a mesquinhez de quem se julga no direito de magoar. Consegue dar nomes aos bois: o que muitos juram ser "padrão normal" é preconceito. Cá entre nós, normal é um conceito muito relativo – depende de ponto de vista. Por exemplo, o meu conceito de normal é cada um cuidando da própria vida, se concentrando em ser e fazer os outros felizes. Provavelmente, diante dos comentários e ações cada vez mais violentas em rede social e na vida real, são poucos os que concordam comigo.

- São duas pessoas que estão descobrindo que se amam. E isso é lindo. Basta que você se lembre das sensações de olhar nos olhos da pessoa que fez seu coração acelerar pela primeira vez. Das mãos geladas. Do rosto quente. Das palavras presas entre o coração e a boca. Daqueles momentos de tensão que antecediam o encontro. De qualquer bobagem dita que ganhava importância de poesia ou prosa (dependendo do seu gosto). Dos encontros acidentais ou não tão acidentais assim. Do primeiro toque. Do primeiro beijo. Da primeira ou última lágrima. Como é que você não vai se identificar com algo assim? Eu queria ter encontrado o equivalente pra mim de um Bernardo ou um Lucas nesta época. Alguém que desse real sentido ao que cantou Nat King Cole David Bowie (na trilha de Moulin Rouge) - que é a primeira citação deste texto, logo abaixo da capa.

“Lantejoula, bloco, mãoisso é deserto.Eu não quero a multidãoSó quero você.
Minha paleta, violãoEstá completoMas só se você for meu CD.
O que dizer de você sempre estar aquiMesmo quando fechovocê vem abrirmeu sorriso.
Sei que vai ser seuNada disso é meu
SempreSempreSempre... seu."(link da música)

- E tenho que agradecer ao Augusto e ao Vinícius por criarem uma história que me fez apaixonar antes do fim da segunda linha da sinopse. Que despertou a segurança de saber que era algo que eu tinha que ler (a ponto de furar a fila) e me fez companhia e foi responsável por alguns momentos de paz em uma semana difícil, enjoada e turbulenta. Que me remeteu aos sentimentos que só o David Levithan (o ponto de partida nas várias conversas com o Vinícius durante a Bienal) desperta em mim com histórias humanas, divertidas, emocionantes e tocantes, mas trouxe em vozes próprias, fortes, onde nada falta e nada sobra. Onde a gente sabe que se estender a mão, alguém vai segurar e pular com você.  É o que eu sempre fico rezando aos céus pra ler, agradeço profundamente quando minhas preces são atendidas e depois indico para todo mundo: pegue e leia. Não vai se arrepender.

Bacci!!!
Beta Oliveira

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5 comentários :

  1. Esse livro já me pareceu fofo ao ver a sinopse. E acho que a história foi muito bem feita, deu pra entender os personagens e o que eles sentem, se encantar e simpatizar com eles e a sua história. Parece que vale a pena mesmo.

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  2. Depois de experiências negativas ao ler livros/séries escritos por mais de uma pessoa comecei a fugir deles, não tenho coragem para se arriscar, sem falar que ultimamente estou evitando ler livros onde os principais são amigos e descobrem que se amam, me cansei de tramas assim, tudo parece mais do mesmo... por esses motivos dificilmente eu leria 1+1 a matemática do amor...
    Mas eu amei sua resenha, Beta, meus parabéns!!

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  3. Me interessei pelo livro desde a sinopse, que mostra um romance homossexual, algo que, na minha opinião, ainda preciso ser mais discutido e até aceito. A capa está linda e espero que os autores consigam construir bem a amizade dos personagens, até o romance

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  4. Eu não curto histórias com adolescentes, mas eu adoro histórias com temas atuais. O principal, homossexualidade, ela carrega uma infinidade de outros temas, como vc mesma citou, como amizade, identidade, família, descobertas... enfim, é um ótimo livro e recomendo a todos.

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  5. Eu achei a capa lindíssima e a história parece ser muito melhor!!
    Com diversão e sensibilidade, relatando tantos dramas, sonhos e inconstantes da adolescência.
    Aliás, os autores são bem conhecidos por escreverem sobre o tema tão bem, e quero muito lê-lo em breve!!
    bjss

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Feliz dia!!!

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