Resenha: O amor nos tempos do ouro - Marina Carvalho

05/07/2016

Marina Carvalho
Ano: 2016 / Páginas: 328
Idioma: português 
Editora: Globo Alt
"Sabes que nunca me apaixonei, maman, mas se porventura o tivesse feito, seria por alguém como ele?"
Cécile Lavigne perdeu todos os que amava e agora está sozinha no mundo. Ela, uma franco-portuguesa que ainda não completou vinte anos, está sendo trazida ao Brasil pelo único parente que lhe restou, o ambicioso tio Euzébio, para casar-se com o mais poderoso dono de terras de Minas Gerais, homem por quem Cécile sente profundo desprezo. Após desembarcar no Rio de Janeiro, Cécile ainda precisará fazer mais uma difícil viagem. O trajeto até Minas Gerais lhe reserva provações e surpresas que ela jamais imaginaria. O explorador Fernão, contratado por seu futuro marido para guiá-la na jornada, despertará nela sentimentos contraditórios de repulsa e de desejo. Antes de enfim consolidar o temido casamento, Cécile descobrirá todos os encantos e perigos que existem nessa nova terra, assim como os que habitam o coração de todos nós. Com o passar dos dias, crescerá dentro dela a coragem para confrontar todas as imposições da sociedade e também o seu próprio destino.
Ciao!!

- Este livro é perfeito. Impecável. Não tem exageros nem omissões. Você sente a profundidade da pesquisa, o cuidado necessário em diferentes áreas para que tudo funcionasse. E deu certo. Deu muito certo. Rendeu uma história de amor e, além dela, um retrato possível do que ocorria na época.

- Cécile não tinha poder. Mesmo sendo herdeira da fortuna da família, não tinha acesso ao dinheiro nem independência por ser mulher. Por isso, o tio por parte de mãe, Euzébio, logo a “negociou” em casamento para Euclides de Andrade, um homem sobre o qual não se podia dizer um comentário positivo. Cécile, criada com enorme afeto e de uma forma diferente pelos pais, não conseguiria aceitar resignada este destino, mas a princípio não conseguiria mudar nada sozinha. Ao longo da jornada, Céci vai encontrando a própria força, se tornando uma das forças femininas do livro.

- Ela encontrará um aliado em Fernão. Mas não a princípio, porque quando eles se encontram, ela era o último trabalho dele, a noiva comprada a ser entregue na casa do homem mais rico das Minas Gerais. No entanto, ela não era o que ele imaginava que fosse e se tornou alguém com quem ele passou a se importar. Depois de uma vida inteira fazendo coisas às vezes desprezíveis, o explorador poderia ter encontrado o caminho para a redenção.

- Claro que não será fácil. Temos poder, intriga, sofrimento, violência. Seres humanos se julgando superiores a outros porque tinham dinheiro, influência, pela cor da pele ou pelo sexo. Mulheres tratadas como objetos sem direito a sentimentos ou iniciativas próprias. Escravos tratados e conduzidos como animais. Falsos moralistas se passando por bastiões sociais. Homens se regozijando em ferir outros apenas para manter um status quo pelo chicote.

- A autora nos conduz pelo Caminho Novo, pelo esplendor de Vila Rica ou das fazendas gigantes de cana de açúcar, pelos sons da senzala, pela rotina do quilombo, pelas jornadas estradas rumo ao interior do Brasil, pelas belezas naturais, pelo temor de encontrar os temíveis e violentos índios. Aquela professora de Letras que existiu em mim lia o livro e pensava em todas as formas de trabalhá-lo em sala de aula. A garota que adorava História ficou pasma com as referências que puxavam lembranças de sala de aula. Só pensava em quantos trabalhos interdisciplinares – incluindo Literatura e Geografia – se tornam possíveis a partir da leitura deste livro.

- Outro ponto que também pode render excelentes debates em sala de aula: a abordagem à cultura africana e/ou afro-brasileira que consta no livro. O olhar sobre a escravidão – seria impossível contar a história deste livro ignorando esta triste realidade da história brasileira – está motivado por uma riqueza de detalhes envolvendo a vida a que foram condenados homens e mulheres arrancados de suas tribos na África para serem vendidos e maltratados nas colônias americanas. Se você for estudante ou professora/professor, o que está esperando para levar isso para a sua sala de aula?

- E pessoal, temos um vilão daqueles detestáveis. Usando a televisão como referência (aliás, O Amor nos Tempos do Ouro me remeteu à nata das novelas de época que servem como referência até hoje no imaginário nacional), Euclides de Andrade é o mal encarnado sem redenção, um misto do temível Senhor de Montserrat (eu era criança quando Direito de Amar foi exibida e detestava ele), com o falso moralismo do Dom Jerônimo (um demônio disfarçado de cristão piedoso em A Muralha) e de tudo de ruim que a gente pensa quando alguém cita o Leôncio, de Escrava Isaura (sei que muitos viram a versão mais recente, mas vi as reprises da versão com a Lucélia Santos) ou o Barão de Araruna de Sinhá Moça (escolha a versão que preferir)

- Marina Carvalho nos entrega uma história no mesmo patamar de tramas que li na saudosa parceria
Nova Cultural-Harlequin. Se você acompanha o Literatura de Mulherzinha, sabe que muitos dos romances publicados em banca nesta época tinham além da jornada de amor dos protagonistas, um conteúdo histórico que refletia pesquisa, valorizava o produto e ainda nos ensinava muito. Com o diferencial de que não está falando de algo que ocorreu nos Estados Unidos ou em algum país europeu. Está falando da gente. Da nossa terra. Das origens banhadas em sangue, suor e emoldurada nos metais extraídos das Minas Gerais que enriqueceram poucos mundo afora.

- Todo este cuidado, este respeito, este desvelo quase artesanal nos mínimos detalhes é o que faz amor de Céci e Fernão ser o ouro que enriquece quem lê e que não vou hesitar em recomendar a todo mundo. 

Bacci!!!
Beta Oliveira

Depois de comentar, preencha: Formulário

Comente com o Facebook:

4 comentários :

  1. Essa autora me impressiona nos livros que li dela. É de uma sensibilidade com as palavras, um modo de passar os sentimentos e você consegue ver aquilo acontecendo, nada forçado e etc. Gosto muito. E esse novo livro dela parece ter ficado muito bem feito na parte da história também. Por mostrar a realidade daquela época, como eram tratados os escravos e todos esses pontos culturais. Adorei essa parte e foi o que mais deu vontade de ler.

    ResponderExcluir
  2. Da autora eu quero ler De repente Ana, mas posso também começar por este, pois amo romances históricos/de época, e simplesmente me encantei com a resenha, a autora parece explorar muito bem os costumes e elementos da época, construindo uma história rica e gostosa de se ler, amei a recomendação, já estava como desejado

    ResponderExcluir
  3. Esse livro me chamou a atenção logo que foi publicado. Apesar da variedade de autoras nacionais que escrevem sobre o gênero romances de época, é difícil - nunca tinha lido - um que se passasse no Brasil. E a história vai mais além, fala dos problemas e tbm das riquezas do país. Ótimo livro!

    ResponderExcluir
  4. Eu gosto bastante dos livros da Marina, e estou louca para ler esse!
    Se eu já estava curiosa, imagine agora depois de ler essa resenha linda!!!
    Pelo jeito, ficou impecável mesmo!!!!
    AII EU QUEROOOOO PRA ONTEM!!!
    Bjjsss

    ResponderExcluir

Obrigada por comentar!
Feliz dia!!!

Mais Recentes

Cadastre seu email

Você quer receber as postagens do CODINOME por e-mail? Então, inscreva-se aqui.

Em seguida, é preciso ativar a assinatura na mensagem de confirmação que vocês receberão em nome do Google FeedBurner.

Link Me!

CODINOME LEITORA

Codinome: Leitora - Copyright © 2016 - Todos os Direitos Reservados