Resenha: O papel de parede amarelo – Charlotte Perkins Gilman

28/04/2016

O Papel de Parede Amarelo
Um clássico da literatura feminista
Ano: 2016 / Páginas: 112
Idioma: português 
Editora: José Olympio
Este clássico da literatura feminista foi publicado originalmente em 1892, mas continua atual em suas questões. Escrito pela norte-americana Charlotte Perkins Gilman, ele narra, em primeira pessoa, a história de uma mulher forçada ao confinamento por seu marido e médico, que pretende curá-la de uma depressão nervosa passageira. Proibida de fazer qualquer esforço físico e mental, a protagonista fica obcecada pela estampa do papel de parede do seu quarto e acaba enlouquecendo de vez. Charlotte Perkins Gilman participou ativamente da luta pelos direitos das mulheres em sua época e é a autora do clássico tratado Women and Economics, uma das bíblias no movimento feminista. Esta edição de O papel de parede amarelo, que chega às livrarias pela José Olympio, traz prefácio da filósofa Marcia Tiburi.


Talvez as pessoas que se impressionam facilmente tenham sérios problemas com este texto. Na verdade, o conto se revela muito mais profundo que as primeiras impressões.

Uma mulher fragilizada após ser diagnosticada com uma doença que não é citada abertamente é levada pelo marido para uma fazenda histórica no campo, para que se recuperasse.  O conto é todo narrado pelo ponto de vista da paciente, a forma como via o mundo, como percebia o tratamento que estava recebendo, revelando pistas aqui e ali dos sentimentos confusos ou não dela neste momento.

Ela é instalada em um quarto, antigamente usado pelas crianças, com um papel de parede amarelo, e tem todos os movimentos e atividades controladas pelo marido, que é médico, “um homem das ciências” e decidiu em prol do melhor para ela.

No entanto, conforme o relato avança, percebemos que a mulher não se recupera, está cada vez mais afundada na própria mente que encontrou um desafio no padrão do papel de parede amarelo. Ela enxerga uma mulher presa atrás do papel, mas nunca consegue alcançá-la para libertá-la. A esposa tenta impedir que outros descubram este segredo até que seja tarde demais e o que o papel de parede esconde seja revelado: algo que nenhuma ciência será capaz de controlar e “curar”.

O livro, durante muito tempo, foi um relato da forma como a mulher era tratada pela sociedade quando não se encaixava no parâmetro reinante de ser a esposa e mãe submissa, de temperamento dócil. Quando seus nervos não aguentavam, quando tentava sonhar com algo diferente do padrão. Não há explicação clara do que desencadeia o processo de desequilíbrio da personagem: depressão, depressão pós-parto, algo que sempre existiu, mas só apareceu agora? O que fica claro é que a mulher, agora “paciente”, se torna um objeto a ser isolado do convívio social para que possa se recuperar. Ela não tem direito a voz – todas as tentativas dela de expor seus sentimentos ou explicar o que sentia são silenciadas pelo marido médico, o “soberano”, o “homem da ciência”, o “ser social que tudo sabe”. É confiada em um quarto infantil – quando havia outras opções no térreo – e vigiada por uma empregada para ficar realmente distante da dinâmica da casa. Cria uma personagem que aparenta estar em recuperação quando, na verdade, se deteriora cada vez mais.

O resultado disso não poderia ser nada bom, né? A autora descreve todo o processo de sufocamento da personagem e de como isso vai explodir depois, causando um colapso na família. Durante anos, o conto foi visto como um texto voltado para o terror (porque é realmente assustador o que ocorre com a personagem, ainda mais porque fica claro para quem lê que não há esperança). No entanto, após analisar a vida da autora, o conto ganhou uma dimensão mais ampla, relacionado à forma como as mulheres eram vistas pela sociedade, o papel social e sexual esperado dela, algo que nunca poderia transcender – as que tentavam se tornavam párias.

A edição da José Olympio traz apresentação escrita por Márcia Tiburi e posfácio analítico e que esclarece o viés feminista do texto assinado por Elaine R. Hedges, pertencente à edição publicada em 1973. É uma grande ajuda para quem não conhece o texto (como é meu caso) entender todas as suas sutilezas de significados e a sua importância para uma discussão ainda relevante e atual.

Bacci!!!

Beta Oliveira

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3 comentários :

  1. Esse é um livro forte e perturbador. Vejo muitas resenhas falando do quanto ficaram impressionados, quantas coisas medonhas acontecem e essa visão do mundo de uma mulher da época...como era horrível pra elas. A história mexe com o leitor. Só vendo no texto deu uma ideia do que esperar do livro e toda essa desesperança e como a personagem é sufocada é horrível. Ainda mais se parar para pensar que acontecia e ainda acontece hoje em dia. Não foi um livro que me senti confortável para ler, mas gostaria de pegar algum dia.

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  2. Seria cômico se não fosse trágico como algo escrito há mais de 100 ainda possa ser tão atual. Mulheres ainda sofrem abusos e privações e na maioria das vezes de quem prometeu protegê-la. Os relatos da personagem nada mais são que tortura.

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  3. Não conhecia esse clássico,fiquei interessada em ler por todo o tema que ele aborda,tanto os problemas mentais como a parte feminista.
    Interessante o posfácio analítico,traz elementos por uma perspectiva que muitas vezes não percebo na obra.

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