Resenha: A Garota Dinamarquesa - David Ebershoff

22/03/2016

A Garota Dinamarquesa
David Ebershoff
Ano: 2016 / Páginas: 368
Idioma: português 
Editora: Rocco
A garota dinamarquesa reconstrói a história de Lily Elbe, talvez a primeira transexual da história a fazer a cirurgia de redesignação sexual (ou “mudança de sexo”). Vivendo até a meia-idade como Einar, um pintor dinamarquês na Europa dos anos 1920 e 1930, ela teve a sorte de contar não apenas com um médico pioneiro, mas com uma mulher brilhante, generosa e apaixonada, sua própria esposa, Greta, para encontrar sua verdadeira identidade. Num momento em que as questões de gênero estão cada vez mais em voga, o aclamado romance de David Ebershoff, que volta às prateleiras com novo projeto gráfico, capa com o pôster do filme e posfácio assinado pelo autor, é um livro delicado e envolvente e uma leitura necessária nos dias atuais. 
É provavelmente um dos textos mais difíceis que escrevo sobre um livro. Porque, simplesmente, é um daqueles casos que, quando você sabe que é “inspirado por fatos reais”, fica surpreso em comprovar que a vida pode superar qualquer ficção facilmente.


Comentários:

- É incrível como várias histórias surpreendentes aconteceram de verdade e a gente nem sonha. É incrível imaginar que uma situação que atualmente desperta tanto debate, tantas (in)certezas foi o motor da transformação de uma pessoa em quem ela sentia que nasceu para ser. Viveu os primeiros 35 anos de sua vida como Einar, houve um momento em que não mais se reconhecia assim. Em que soube que sempre tinha sido Lili. Agora, se atualmente transformar um corpo para atender à verdadeira expressão de sua alma exige cirurgias específicas e apoio psicológico, imagina este mesmo procedimento na década de 1930!


- Se não fosse a curiosidade de David Ebershoff, que o levou a pesquisar e a escrever uma história de ficção inspirada em fatos reais vividos por um casal dinamarquês há quase 100 anos, não teríamos o livro de estreia dele, nem o filme. E as pessoas continuariam achando que o mundo começa a partir do momento em que existem neles – esquecendo que outros viveram antes e deixaram um legado a ser respeitado.

- Sim, fiquei curiosa a partir do trailer do filme A Garota Dinamarquesa, porque quando vi o Eddie Redmayne “mais menina” que eu (que estou longe de ter o perfil delicado associado ao estereótipo feminino) me peguei pensando: “gente, que história é essa. Quem foi essa pessoa?”. Sim, quando soube que havia um livro, sabia que teria que ler. Não, não tenho nenhuma experiência com uma situação tão complexa sobre o direito de afirmação de uma identidade. Não, não sou especialista em nada disso. Sim, o livro deixa claro: é confuso demais para quem passa por isso na própria pele.

- A primeira coisa que me ganhou no livro: a sensibilidade do autor. Em nenhum momento do livro, David Ebershoff julga Lili ou Greta. De tanto que leu e pesquisou sobre o assunto, inclusive nos relatos deixados pela própria Lili em reportagens e no diário publicado a partir de depoimentos dela, ele optou por uma abordagem ficcional sobre como pode ter ocorrido (ou não) a jornada de transformação de Lili (leia o posfácio escrito pelo autor para a reedição que chegou às livrarias neste ano, no embalo do filme). E as reações das pessoas a isso: o médico que acha que é esquizofrenia, outro que quer fazer uma lobotomia, a dificuldade em colocar em palavras o que está ocorrendo, as dúvidas, as incertezas. E como Lili e Einar conviviam no mesmo corpo a partir do momento que ela ganhou voz e desejos mais intensos (inclusive o autor explica que percebeu nos escritos da própria Lili como ela explicava a convivência com Einar) e o desgaste psicológico e físico que enfrentou até a decisão sobre quem era de verdade.


- O mais relevante é que, se não era fácil ser Lili, era igualmente difícil ser Greta. A personificação literária da verdadeira esposa que se chamava Gerda, se revela uma mulher muito à frente do próprio tempo. Imagine você perceber que seu marido na verdade é uma mulher, mesmo que biologicamente ele seja um homem? Imagina você notar a beleza da verdadeira personalidade dele e transformar em sua musa – porque são os retratos de Lili que dão a Greta a popularidade como artista; já que Einar era um paisagista reconhecido. 

- A maioria das mulheres surtaria, não entenderia, teria uma crise “onde foi que errei” – e são reações legítimas e até previsíveis diante de uma situação que escapa ao campo de conhecimento e conceitos comuns.  A maioria dos parâmetros usados como alicerces morais pelas pessoas não incluem um “como reagir” a este tipo de situação e, em geral, condenam. 

- Talvez pela “espinha do oeste” e por olhar além do que vê, Greta conseguiu enxergar Lili antes de Einar estar pronto para admiti-la. Conseguiu ver a beleza e a fragilidade deste ser, respeitou e apoiou o marido em suas decisões e piores momentos. Tornou o segredo de Lili também o seu segredo – e conseguia ser a leoa protetora enquanto Lili se firmava. Não foi fácil, ela também sofreu, ela se desgastou, ela se preocupou, mas ficou ao lado de Lili até o máximo que pode. Até quando deixou de pertencer à esta história.

- Se você alguma vez na vida se olhou no espelho e questionou algo que o desagradava – ou mesmo condicionou a sua sensação de felicidade ao fim do que considerava um defeito (como fiquei anos da minha vida fazendo com meus dentes tortos e só encontrei a paz depois de anos de um tratamento ortodôntico doído e desgastante), então você tem alguma chance de saber um pouquinho como Lili se sentiu em busca de sua verdadeira identidade. E pode sentir uma empatia e acompanhar sem preconceitos e julgamentos até onde ela foi capaz de ir para poder se tornar fisicamente a mulher que sempre foi. É bonito, é sensível, é intenso, é confuso, é instigante, é emocionante. É ficção. E foi real para Lili. E é real para muitas pessoas por aí neste mundo, vasto mundo.
Desde então ela inspirou muitos de nós, tanto trans quanto cis, a sermos nós mesmos. Lili sabia que uma vida falsa simplesmente não é vida. Quem somos nós? Quem queremos nos tornar? Como nos percebemos? Como queremos ser percebidos? Estas questões de identidade frequentemente estão no núcleo central de nossos conflitos internos. Quem consegue resolvê-las fica mais perto de estar livre. Quase um século atrás, Lili Elbe superou tais questões sobre si mesma. Ela posou para um retrato no ateliê de uma artista e disse para o mundo: – Esta sou eu. (David Ebershoff)
Bacci!!!

Beta Oliveira

Depois de comentar, preencha: Formulário

Comente com o Facebook:

8 comentários :

  1. Confesso que não curto livros/filmes inspirados em fatos reais, mas admiro as atitudes de Einar/Lili em fazer o que fez, indo em busca da sua verdadeira identidade, e numa década de 1930!

    ResponderExcluir
  2. Nossa, queria tanto ler esse livro! Parece incrível *-*
    Fiquei sabendo da existência dessa história à partir do filme, quando vi o trailer (caramba, o ator é mais menina que eu também! Fiquei bestificada com o quanto se encaixou com a história e o dilema da personagem) e comecei a ver mais do que se tratava depois. Gerou muita repercussão, muita gente falando na mídia e é uma história e tanto. A gente não pensa muito nessas coisas do passado, o que essas pessoas enfrentavam antigamente e a luta que foi até a aceitação e ajuda de hoje. Só fica evidente se você convive com pessoas que passam por alguma coisa assim. Tipo histórias de família revividas pra dar exemplo ou argumentar sobre fulano de tal ser de tal forma hoje em dia, que tinha aquele parente assim e assa. Sabe o que quero dizer?
    E ver uma história assim mexe com a cabeça, com os sentimentos da gente. Eu gostei muito e fiquei querendo assistir o filme pra saber mais. Aí veio esse lançamento e ainda estou tentado ver se pego pra ler. É bonito, é real, é tenso e desesperador. É uma vida e todas as dificuldades que um ser humano enfrenta pra saber quem é, gostar de quem é. Acho isso demais, faz você valorizar pessoas assim e deixar o preconceito besta de lado, entender o que eles sentem e pelo que ainda lutam . É um baita livro pelo jeito e que faz pensar em tudo isso.

    ResponderExcluir
  3. A Garota Dinamarquesa tem tido uma grande repercussão desde que foi lançado seu primeiro trailer. Confesso que, apesar de ter ganhado muitos elogios por contar a história da primeira transsexual no mundo, enfrentando a todos, inclusive o preconceito que sei que não era fácil, principalmente naquele época, não me senti atraída a ponto de querer ler o livro ou assistir ao filme. Contudo, para aqueles que gostam de um verdadeiro drama, este livro é perfeito para leitura.
    Bjs!

    ResponderExcluir
  4. Oi!
    Conhecia o livro pelo trailer do filme, mas ainda não li e não sabia que era baseado em fatos reais, com certeza parece ser um livro bem profundo em todos os questionamento de Einar/Lili e a Greta me surpreendeu !!

    ResponderExcluir
  5. Eu sou fã de filmes que são baseados em fatos reais e A garota dinamarquesa, é uma das produções que estou louca para assistir.
    É muito bom saber que o filme irá abordar as questões de gênero, assunto que necessita ser discutido na sociedade.
    Mal posso esperar para conhecer a história de Lily. :D

    ResponderExcluir
  6. Não li, só assisti a adaptação, mas que história incrível! A sensibilidade da história, dos personagens, tudo, mas principalmente de Greta que, que pra mim, foi o ponto alto da história.

    ResponderExcluir
  7. O livro e o filme tratam de um tema super interessante, ainda mais quando a história se passa em um tempo onde tudo era tão mais difícil. Estou louco para poder ler e vivenciar a história de Lily e a prova que o amor pode ultrapassar qualquer barreira. Abraços, amei a resenha, super completa.

    ResponderExcluir
  8. O enredo parecer ser bem interessante, e o filme está muito bem comentado.
    Mas não é o tipo de leitura que eu gostaria de fazer no momento, pois quero leituras mais leves... mas é uma ótima dica.

    ResponderExcluir

Obrigada por comentar!
Feliz dia!!!

Mais Recentes

Cadastre seu email

Você quer receber as postagens do CODINOME por e-mail? Então, inscreva-se aqui.

Em seguida, é preciso ativar a assinatura na mensagem de confirmação que vocês receberão em nome do Google FeedBurner.

Link Me!

CODINOME LEITORA

Codinome: Leitora - Copyright © 2016 - Todos os Direitos Reservados