Resenha: The Normal Heart – Larry Kramer

20/12/2014

the normal heart


The Normal Heart apareceu na minha vida primeiro em uma notícia doO Globo”. Depois, em meio à agenda da Copa do Mundo, peguei o filme pela metade no intervalo entre duas partidas. Era uma cena comum, dois homens conversando sobre ativismo, amor, tratamento, riscos, enquanto um toma sorvete e o outro arruma a sala. Até que há uma reviravolta e a cena termina com uma revelação bombástica. Não tive coragem de trocar de canal até acabar. Depois, fui pesquisar horário para ver desde o início. Não precisou muito para eu correr atrás da peça. E finalmente, ela está aqui, em uma data simbólica, para lembrar a importância de não baixar a guarda para essa doença, que não tem cura.


The Normal Heart – Larry Kramer - Nick Hern Books (NHB)


(2011)


O livro é a transcrição da peça apresentada em 1985 na Broadway, mencionando outras montagens, como o revival de 2011 na Broadway, a montagem de 1986 na Inglaterra e a adaptação para a TV pela HBO. Antes do texto, constam informações sobre o autor, detalhes como o período em que a peça se desenrola (entre julho de 1981 e maio de 1984, com direito à cronologia das cenas), informações que estavam nas paredes do cenário, falando sobre os números da doença, o pouco destaque que recebeu da imprensa; algumas mudanças que a montagem de 2011 fez no cenário.


A primeira dúvida que me esclareceu é de onde o autor tirou o título “The Normal Heart”. Ok, sei que todos entendemos após ler a peça ou ver o telefilme, que é uma história sobre amor e igualdade para poder amar, sobre política, sobre saúde, sobre vida e sobre morte. Algo que afeta a todos, independente de orientação sexual. A resposta veio na epígrafe, que é trecho do poema “September, 1, 1939” de W.H. Auden, uma referência a algo que será mencionado em uma cena da peça: a 2ª Guerra Mundial. O paralelo com a inércia que levou ao Holocausto (Ned Weeks, o escritor-ativista protagonista, é de família judia).


Afinal de contas, o texto é totalmente partidário da visão da luta e do confronto por um ideal: o de conseguir atendimento para impedir que a doença se espalhasse. Ele foi escrito por Larry Kramer, um ativista que viveu grande parte das cenas no início da epidemia do então tachado “câncer gay”, ele perdeu pessoas e sobreviveu para contar a história. É a versão dele, que é forte, intensa, sem meias palavras e sem poupar todos os setores envolvidos. Ele esbraveja contra os governos de Nova York e dos Estados Unidos, que não moveram uma palha enquanto a doença esteve relacionada apenas aos gays; contra os próprios gays que estavam mais interessados em correr risco do que abrir mão de um estilo de vida que os estava matando um a um; contra os setores médicos que lavaram as mãos até que não foi possível mais ignorar (e ainda afirma que a paternidade do HIV foi roubada dos franceses por norte-americanos). E esbraveja é o termo certo: o texto é direto, seco e muito agressivo (foi o tom que o Mark Ruffalo usou no filme para interpretar o Ned Weeks, alterego de Larry Kramer na peça), algo que não conquistou muitos adeptos para a causa, inclusive entre os próprios gays.


A peça começa em 1981, com a revelação dos primeiros casos de uma doença ainda desconhecida que afetava o sistema imunológico dos pacientes, tornando-os frágeis a qualquer tipo de infecção. O escritor Ned Weeks conhece a Dra. Emma Brookner, que está tratando dos pacientes e quer a divulgação dos casos como uma forma de tentar prevenir a transmissão até que o agente causador seja identificado. No entanto, a imprensa não se interessa – quando saem matérias, não tem o destaque necessário para um caso tão grave. Ned e um grupo de amigos fundam o Gay’s Men Health Care (GMHC) como forma de estabelecer uma frente de combate e mobilização sobre a doença. O problema é que a forma de atuação do grupo é alvo constante de divergências internas: Ned quer algo mais político e mais agressivo, estilo “botar para quebrar”, e os demais integrantes, liderados pelo presidente Bruce Niles, que era gay, mas não era assumido (ele temia as consequências disso no emprego). A peça (e o filme) tem o tom “Ned contra tudo e contra todos” agravado pela corrida contra o tempo quando Felix, o homem que Ned ama, também é diagnosticado com a doença. Este confronto vai custar muito a todos os envolvidos, vidas, desgaste emocional, frustrações, tudo aparece, exposto por uma doença que paira sobre todos soando e sendo vista como uma condenação do que eles são.


- É duro, mas é o que The Normal Heart declara em alto e bom som: a inércia dos governos de NY e Reagan em investigar as causas, em divulgar os sintomas, tratando tudo como histeria de grupos isolados, condenou vários homens à morte sem nenhum apoio, conforto e dignidade (em um determinado caso, o jovem morto foi tratado literalmente como lixo – e ainda tiveram que ser gratos por isso). Com apoio da imprensa, que divulgou outros casos de menor gravidade quanto comparado ao crescimento do número de pessoas contaminadas pela doença. Seja porque os jornalistas – inclusive os jornalistas gays – não queriam assumir a matéria, ajudando a negar a realidade (que é a forma como Ned conhece Felix, que era jornalista de moda e estilo do The New York Times), seja pela influência política e social da época nas pautas jornalísticas. O motivo? Segundo a peça escancara: os gays não atendiam ao padrão da sociedade conservadora e a doença passou a ser vista como uma “ordem de extinção por ser quem são”, uma forma de “purgar a sociedade da presença nociva deles” (eis algumas das teorias relacionadas ao início da doença nos EUA). A peça termina insinuando a virada – quando o vírus é identificado e o assunto começa a ganhar destaque. Depois disso, os governos percebem que homens e mulheres heterossexuais também estavam sendo afetados – a doença, ao contrário da sociedade, não discrimina – e afetando pessoas famosas. Quem viu Clube de Compras Dallas deve se lembrar do primeiro fato mencionado no filme: a morte do ator Rock Hudson, expondo publicamente as preferências sexuais dele (que era um galã de Hollywood), levou o assunto para as manchetes dos jornais e televisões. Mas isso já era 1985. A peça afirma que se esta mobilização tivesse acontecido antes, muitas mortes poderiam ter sido evitadas.


*A minha primeira lembrança em relação à Aids é que ela não tinha nome. Era sempre “morte por pneumonia” – se você foi criança na década de 80 e prestava atenção nos jornais, vai se lembrar de alguns casos em que essa causa da morte foi divulgada. Mas a lembrança mais drástica foi a morte do Fred Mercury, em 1991. Porque havia rumores de que ele estava doente, mas ninguém sabia o que era. Aí um dia, o telejornal anunciou que ele estava com Aids. No dia seguinte, o mesmo telejornal anunciou que ele havia morrido. Na minha cabeça, foi um recado de como essa doença matava mesmo (na época não sabia que ele já estava doente há pelo menos 3 anos, e só tornou oficialmente pública às vésperas da morte). Até hoje não consigo ouvir “The show must go on” por me lembrar da tristeza daquele dia*


- A vantagem de ter visto o filme do HBO e lido a peça é entender como o texto teatral foi adaptado para a televisão. Óbvio que o meio interfere na forma como a mensagem é apresentada. Momentos, personagens, locais que são condensados ou meramente citados na peça foram detalhados no filme, com cenas específicas. Informações que não constam no filme estão na peça (como uma escolha de Felix ao fazer o testamento. Lembro que vi um texto criticando, mas na peça a decisão dele é explicada). A peça resolveu uma curiosidade minha: a semelhança das frases que Ned escuta em dois momentos cruciais: quando descobre sobre a doença ouvindo de um paciente de Emma e quando Felix compartilha com ele a suspeita de estar doente. Outro ponto é que a peça amplia os laços entre alguns personagens: no filme é insinuado que Ned estava interessado em Bruce, até encontrar Felix; na peça tem até comentário de Bruce sobre isso; o filme mostra que há uma ligação entre Tommy e Ned e a peça mostra o interesse de Tommy por Ned, novamente, até Felix chegar. Na cena do 1º jantar de Felix na casa de Ned é dito muito mais que está no filme, que, por sua vez, mostra muito mais do que é possível na peça. As mortes de personagens secundários, mencionadas nos diálogos da versão teatral, ganham impacto no telefilme – os efeitos da doença não são amenizados nem as consequências.  


*As manchas pelo corpo são um dos sintomas citados ao longo do filme da HBO para a imediata identificação dos pacientes com o “câncer gay”. Vários personagens vão aparecer assim em diferentes estágios da doença. E foi impossível não me lembrar de uma cena em Filadélfia, quando as manchas se tornam assunto do depoimento do personagem do Tom Hanks no julgamento. Essa cena me emociona até hoje, não importa quantas vezes eu veja o filme. Mas aqui, as manchas se tornam uma porrada na cara do telespectador, porque elas se tornam a condenação à morte de personagens, especialmente aqueles com quem você passa a se importar*


- Algumas cenas do filme não estão na peça, até mesmo aproveitando as necessidades da adaptação do material para a televisão: o encontro de Emma com os gays quando ela avisa sobre a suspeita de que a doença seja transmitida sexualmente; o discurso de Tommy durante um velório (que também é de arrepiar: “eles simplesmente não gostam da gente”); as cenas na praia; a da festa para arrecadação de recursos e o trecho quando Felix percebe a gravidade da doença e Ned só se permite desabar quando está longe dele. Outras estão lá praticamente sem mudanças no diálogo e beneficiadas pelas possibilidades de representação oferecida pela TV: a cena que me fez parar para ver o filme é uma delas. E a outra é a da discussão onde Felix lembra a Ned que ele não pode forçar o sol a nascer (essa é outra das cenas que causa arrepios de ponta a ponta, tamanha a quantidade de sentimentos envolvidos e manifestados).


- É um material que desafia qualquer ator seja no palco ou na TV. Eu já conhecia o Mark Rufallo de outros filmes e nem preciso dizer nada sobre Julia Roberts, né? Eu realmente não sabia do que o Matt Bomer era capaz, porque estava afastada de seriados há séculos (ou seja, nada de White Collar na minha memória) e confesso que quase não deu pra notá-lo em Magic Mike. E mesmo assim, nem um nem outro estão perto do que ele se preparou para fazer no The Normal Heart. Como várias críticas disseram: Felix é o coração do filme/peça, é quem vai fazer a gente se apaixonar, sofrer e lamentar através dele o destino de vários outros homens e mulheres condenados pela omissão no início desta luta. Matt entendeu e levou isso para todas as cenas. O Emmy premiou o filme, mas não os atores. Espero que eles sejam valorizados no Globo de Ouro.


- E o livro encerra com uma carta do Larry Kramer que foi distribuída todo mundo que assistiu ao revival da peça em 2011. No texto chamado “Please know” (Por favor saiba que) ele detalha que várias cenas realmente aconteceram e personagens foram inspirados em pessoas reais. Diz ainda que em todos os países do mundo a doença é uma praga, mas nenhum a trata assim. Reforçou que os políticos não investem o necessário, que os laboratórios lucram com a doença que ainda não tem cura e muitas pessoas continuam morrendo todos os dias.


Não sei se o livro de 79 páginas em Inglês está à venda no Brasil. Eu comprei, com a ajuda da Andrea, na Wook. Sobre o filme do HBO, recomendo os textos postados no Série Maníacos e no Cinema e Argumento; na Vogue; no Huffington Post; no Tumblr; e no Salon, uma entrevista com o autor sobre o processo de escrita da peça, que detalha como foram criadas cenas como a da caixa de leite.


E informações sobre a Aids estão numa área específica do portal do Ministério da Saúde. Não se esqueçam: tem que prevenir para não ter que remediar. Porque ainda não tem cura.


Bacci!!!


... por Beta Oliveira



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3 comentários :

  1. Lindo!!
    Li algumas resenhas e alguns trechos e vi o filme, mas, infelizmente, ainda não tive a oportunidade de ler o livro completo. No entanto, o filme me encantou e emocionou tanto. As cenas de intimidade entre Mark Ruffalo e Matt Bomer são encantadoras, sensíveis e passam uma sensação de um amor tão grande.
    Fico feliz que a adaptação para o cinema contou com atores tão bons, como Jim Parsons e Julia Roberts (além dos já citados acima).
    Os trechos que já li do livro me fizeram sentir uma angustia tão grande. O termo "câncer gay" me choca. Como as pessoas podem ser tão preconceituosas e mesquinhas?
    Me entristece pensar em como tantas pessoas morreram desamparadas, sem nenhuma ajuda, sendo julgadas e discriminadas.
    É necessário que se fale disso ainda hoje, pois o preconceito ainda não morreu, ainda está vivo e muito forte. Por isso, fico feliz por existir esse livro e por existir essa bela adaptação para as telonas.
    Os termos podem até terem mudado, mas o preconceito ainda é grande.

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  2. Nunca tinha ouvido falar dessa peça/filme e achei muito interessante sua resenha. Uma crítica dessas com certeza não agradou muita gente na época.

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  3. É uma história antiga, mas, mesmo assim, atual.
    Hj, pelo menos, tem-se informação em qlqr lugar, mas as pessoas ainda continuam não se prevenindo.

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Obrigada por comentar!
Feliz dia!!!

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